Sexta-feira, 21.01.11

Questão Coimbrã #5

A «Questão», embora aparentemente literária, denunciava incompatibilidades mais profundas. Os jovens universitários de 1865 reagiam contra a falsidade que representavam muitos outros aspetos da vida nacional, produto da adaptação das formas alienígenas do liberalismo à velha estrutura tradicional do País. A revolta da mocidade coimbrã havia de eclodir num movimento político, filosófico e literário, cuja amplitude ultrapassou talvez a do próprio Romantismo. Este grupo que se sublevou contra Castilho era o mesmo que, acrescido de personalidades com tendências paralelas, havia de tratar, em 1871, nas Conferências Democráticas do Casino, de colocar Portugal a par da atualidade europeia, ligando-o «com o movimento moderno», estudando «as condições de transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa». (…) conta Antero, na sua «Carta a W Storck» –, o que se viu mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 ou 20 rapazes, que não queriam saber nem da Academia nem dos Académicos, que já não eram católicos nem monárquicos, que falavam de Goethe e Hegel como os velhos tinham falado de Chateaubriand e de Cousin; (…) que inspiravam talvez pouca confiança pela petulância e pela irreverência, mas que, inquestionavelmente, tinham talento e estavam de boa fé, e que, em suma, havia a esperar deles alguma coisa, quando assentassem. Os factos confirmaram esta impressão; os dez ou doze primeiros nomes da literatura de hoje saíram (salvo dois ou três) da Escola Coimbrã, ou da influência dela». E assim é. Hoje, já com a perspetiva que dá a distância histórica, essa geração surgida à vida pública na famosa «Questão» avulta como uma das mais brilhantes constelações que a cultura portuguesa produziu em qualquer época.


 


Guerra da Cal, Ernesto, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 3º volume, Porto, Figueirinhas, 1979

publicado por Queirosiana às 12:53 | link do post | comentar
Quarta-feira, 19.01.11

Questão Coimbrã #4

Nos primeiros anos do terceiro quartel do séc. XIX, (…) o Romantismo português propriamente dito já tinha dado quanto dele se podia esperar. Depois da morte de Garrett (…) Ficara, pois, Castilho, em redor do qual se agruparam em Lisboa as hostes ultrarromânticas. Castilho, (…) Grande purista, mestre do idioma, dotado de escassa imaginação criadora, nunca fora realmente romântico, embora seja em regra mencionado como terceiro mentor do movimento. Formado na dissolução do neoclassicismo arcádico, que nunca abandonou, encarnava uma peculiar adaptação das formas externas do Romantismo a um espírito pseudo-clássico. (…) Era ele, pois, o obstáculo com que havia de tropeçar a nova rebeldia da geração intelectual que por volta de 1865 se estava formando em Coimbra. Esta geração já desde 1861 vinha dando provas do seu pendor para a rebeldia à disciplina universitária com ruidos os tumultos, irreverências e revoltas – que indicavam claramente a inconformidade da juventude académica com os valores oficiais da sociedade em que vivia. A chamada «Questão de Coimbra» ou do «Bom senso e Bom gosto» foi a primeira manifestação importante dessa mocidade, (…) Com a famosa «Questão Coimbrã» se pode dizer que se inicia o espírito contemporâneo nas letras portuguesas. Com ela entram em conflito aberto o novo espírito cientifico europeu e o velho sentimentalismo, domesticado e retoricizado, do Ultrarromantismo vernáculo. O novo lirismo que aparecia, social, humanitário e crítico, não se alçava apenas contra a tirania do gosto literário vigente, exercida por Castilho – que esses rapazes alcunharam de «árcade póstumo» - mas também, e de modo mais vasto, contra todos os conceitos políticos, históricos e filosóficos que ele e os seus satélites literários simbolizavam.


 


Guerra da Cal, Ernesto, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 3º volume, Porto, Figueirinhas, 1979


 



publicado por Queirosiana às 12:49 | link do post | comentar
Terça-feira, 18.01.11

Questão Coimbrã #3

"Castilho não reagiu publicamente; mas conseguiu a intervenção de amigos seus. Nas intervenções de uma parte e de outra, o problema central levantado por Antero ficou apagado por considerações pessoalistas, mostrando-se alguns dos polemistas impressionados com a irreverência dos jovens em relação aos mestres, sobretudo com a brutalidade das alusões de Antero e de Teófilo à idade e à cegueira física de Castilho.


 


Foi o caso de um folhetinista ecléctico, Ramalho Ortigão, num opúsculo intitulado A Literatura de Hoje, 1866, que deu lugar a um duelo do autor com Antero. Camilo Castelo Branco interveio de forma ambígua, a pedido de Castilho, com o opúsculo Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866. Na realidade, pouco se acrescentou aos dois folhetos de Antero durante os meses que a polémica durou ainda. No entanto um ou dois textos são interessantes pelas suas considerações de ordem estética. Nela intervieram, além de muitos outros (alguns solicitados por Castilho), M. Pinheiro Chagas, Júlio de Castilho, Teixeira de Vasconcelos, José Feliciano de Castilho e Brito Aranha." Eça de Queiroz, em O Crime do Padre Amaro, de forma implícita, toma parte dos jovens literários.


 


Adaptado de: História da Literatura Portuguesa (DVD),
2002 Porto Editora, Lda.

publicado por Queirosiana às 17:06 | link do post | comentar
Domingo, 16.01.11

Questão Coimbrã #2

"Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfácio o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao editor António Maria Pereira, inculcar o poeta apadrinhado como candidato mais idóneo à cadeira de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, e censurar um grupo de jovens de Coimbra, acusando-os de exibicionismo livresco, de obscuridade propositada e de tratarem temas que nada tinham que ver com a poesia."


 


Referia-se a Teófilo Braga (que por ironia do destino viria a ser um futuro candidato a essa cadeira de Literatura), Antero de Quental e Vieira de Castro, que Castilho exceptuou da sua ridicularização da "escola coimbrã". "Antero de Quental respondeu com uma Carta com o título "Bom senso e bom gosto" a Castilho, que saiu em folheto. Nela defendia a independência dos jovens escritores; apontava a gravidade da missão dos poetas da época de grandes transformações em curso e a necessidade de eles serem os arautos dos grandes problemas ideológicos da actualidade, e metia a ridículo a futilidade e insignificância da poesia de Castilho."


 


"Pouco depois Teófilo Braga solidarizava-se com Antero no folheto Teocracias Literárias, 1866", no qual afirmava que Castilho devia a celebridade à circunstância de ser cego. "Entretanto, Antero desenvolvia as ideias já expostas na Carta a Castilho com o folheto A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865", evidenciando a necessidade de criar uma literatura que estivesse à altura de tratar os temas mais importantes da actualidade.


 


Adaptado de: História da Literatura Portuguesa (DVD),
2002 Porto Editora, Lda.

publicado por Queirosiana às 11:59 | link do post | comentar
Sexta-feira, 14.01.11

A Questão Coimbrã #1

Como referi há uns dias, na Nota Bibliográfica de Eça de Queiroz, este foi parte passiva desta "Questão Coimbrã"; já o mesmo não posso dizer de Ramalho Ortigão que se viu face a face com um duelo de espadas com Antero de Quental.


 


Embora as minhas aulas de História não estejam tão opacas assim, a verdade é que esta Questão Coimbrã estava muito vaga na minha mente. por isso, decidi fazer alguma pesquisa, pois o tema parece-me de enorme relevo para o blogue. Aqui ficam as primeiras impressões:


 


A Questão Coimbrã surge como um embrião daquilo que viria a ser o Realismo, foi um sinal de renovação literária e ideológica, do séc. XIX uma ruptura com o "status quo" literário promovido por António Feliciano de Castilho junto da sua "escola de elogio mútuo" - nome que Antero de Quental atribui ao "apadrinhamento" que Castilho faz junto de escritores mais novos (como Ernesto Biester, Tomás Ribeiro, Pinheiro Chagas). Questão Coimbrã porque surge no seio de um circulo de estudantes de Coimbra que se insurgem contra "o grupo de admiradores e protegidos" de Castilho "em que o academismo e o formalismo anódino das produções literárias correspondiam coerentemente à hipocrisia das relações humanas, e em que toda a audácia tendia a neutralizar-se".


 


Este grupo de jovens escritores estudantes de Coimbra vai "agitar muitas águas" nos anos de 1862 a 1865.


 


Adaptado de: História da Literatura Portuguesa (DVD),
2002 Porto Editora, Lda.



publicado por Queirosiana às 16:18 | link do post | comentar

Próxima Obra em Análise

A Tragédia da Rua das Flores

Pesquisar

 

Menu de Navegação

Posts recentes

Arquivos

subscrever feeds

Mais sobre mim