Quarta-feira, 04.05.11

O Crime do Padre Amaro #1

Li o livro em pouco tempo, estranhei até a rapidez com que o fiz, mas a história é terrivelmente sedutora e é impossível resisitir à tentação!

No início, Eça apresenta-nos um Amaro "sem sal". A sua infância foi repleta de algumas tragédias e de muitos "frus frus" de saias de mulheres. A ida para o seminário por ordem da sua benfeitora, revela-nos um Amaro com pouca convicção na Igreja, sem qualquer vocação. A temporada nos confins da Serra, que ocorre um ano antes de se tornar pároco em Leiria, onde irá decorrer toda a acção de O Crime do Padre Amaro, talvez o tenham despertado para a sua fé, mas não o suficiente. Vai para Leiria por influências de um conhecido seu.

 

Em Leiria, Amaro conhece Amélia, uma jovem rodeada por um clã de beatas que me causaram um certo desconforto, não só pela fé desnorteada que representam como pela contradição entre aquilo que acreditam cega e radicalmente e aquilo que fazem, pois as intrigas discutidas e provocadas por aquele clã de beatas era, no mínimo, desconcertante. Aliás, aquela sociedade escrita por Eça transpirava intriga e mesquinhez, um atraso de pensamento incrível, uma convicção religiosa doentia e temente.

 

A ideia que esta obra transmite, e que até há uns anos atrás não era invulgar, era de que o Padre tinha um poder enorme na comunidade. Nesta obra isso é claro e límpido, assim como a vida faustosa que muitos daqueles padres/personagens levavam, grandes barrigas, grandes festins de comida... o papel da religião é o grande tema em "O Crime do Padre Amaro".

 

Confesso que as personagens religiosas nesta obra são profundamente ridicularizadas, à excepção do Abade Ferrão que, no fim da história, tenta "resgatar" Amélia sem a julgar severamente. É uma personagem curiosa, um religioso que encara a religião da forma, que a meu ver, é a mais indicada - uma fé por Amor e não por Temor.

 

Há depois umas figuras "anti-religião" muito curiosas, como João Eduardo, o enamorado de Améliazinha, que escreve o estrondoso "Comunicado"; o Dr. Godinho, que no início é um forte opositor da Igreja, ams que termina a história, manso como um cordeirinho pois, por via da sua mulher, os padres conseguem controlá-lo; Gustavo, o tipógrafo revolucionário; o Dr. Gouveia, o médico, que tem uma conversa com João Eduardo que me deliciou e que li por duas vezes.

 

A crítica feroz, está, mais uma vez, presente nesta obra de Eça. Critica fortemente a Igreja com muito pouco pudor e com tremenda coragem. é uma obra magistral.

 

publicado por Queirosiana às 11:55 | link do post | comentar | ver comentários (3)

As Farpas (1871-1972) #18

Não li todas as crónicas, aliás, para embaraço meu, apenas li três crónicas completas e não terminei a quarta. Não foi porque não tivesse gostado... de todo. Foi um tremendo gosto ler aquelas três Farpas, citei várias trechos ao meu pai, assinalava páginas e depois lia-as alto e tudo aquilo ainda parecia melhor e mais real dito assim, em voz alta. Sinto necessidade de justificar a minha "não leitura" completa. Acima de tudo, porque era uma leitura muito absorvente, demorada (pois haviam certos termos próprios da época e piadas com certas figuras que só através de uma pesquisa sobre quem eram, faziam sentido) e além disso, parece-me que é uma obra para ir lendo, aos poucos, deliciando cada palavra, sorvendo cada ironia.

 

Em breve aprofundarei um pouco mais as 3 crónicas que li e iniciarei a análise de "O Crime do Padre Amaro" que também já terminei.

publicado por Queirosiana às 11:53 | link do post | comentar
Segunda-feira, 07.03.11

As Farpas (1871-1972) #17

O romance, esse é a apoteose do adultério. Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem drama, nem personagens. Júlia pálida, casada com António gordo, atira com as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre esta acção de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1850!

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

publicado por Queirosiana às 12:29 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #16

A propósito do estado da política da época, Eça escreve:

 

Os lustres estão acesos; o país é expectador distraído: nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e acha-os todos impuros e nulos; não se interessa pelas cenas e acha-as todas inúteis e imorais; não se interessa pela decoração e julga-a ridícula. Só às vezes, no meio do seu tédio, se lembra que para poder ver teve que pagar no bilheteiro!

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 12:28 | link do post | comentar
Domingo, 06.03.11

As Farpas (1871-1972) #15

O corpo legislativo (...) Às vezes procura viver, mover-se, e demonstra então, em rpovas incessantes, a sua incapacidade orgânica para discutir, para pensar, para criar, para dirigir, para resolver a questão mais rudimentar de administração. (...) O parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, intrigar um pouco, e combinar partidas de whist. O parlamento é uma sucursal do Grémio. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


publicado por Queirosiana às 20:30 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #14

Apesar disso a esta política infiel aos seus principios, vivendo num perpétuo desmentido de si mesma, desautorizada, apupada, pede ainda uma multidão inumerável de simples a salvação da coisa pública. É trágico, como se se pedisse a um bobo paralítico mais uma cambalhota ou mais um chiste.

 

O orgulho da política nacional é ser doutrinária. Cada um diz: - sou doutrinário, eu! - Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos; é ter deles por consequência o mínimo; é não ser de partido nenhum - ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 11:37 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #13

Nós não quisemos se cúmplices na indiferença universal. E aqui começamos serenamente, sem injustiça e sem cólera, a apontar dia por dia o que poderíamos chamar - o progresso da decadência. (...) Não sabemos se a mão que vamos abrir está ou não cheia de verdades. Sabemos que está cheia de negativas. Não sabemos, talvez, onde se deva ir;sabemos decerto, onde se não deve estar. (...) E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal. (...) Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 11:37 | link do post | comentar
Sábado, 05.03.11

As Farpas (1871-1972) #12

O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

Não estranhem qualquer coincidência com a realidade actual, ou pelo menos, estranhem e depois entranhem. N'As Farpas, esta quase assustadora semelhança com a actualidade acontece de página para página. É um livro essencial para compreendermos este nosso país e para nos apercebermos da falta de originalidade que nos persegue desde o séc. XIX, uma vez que as críticas ferozes que Eça e Ortigão fazem nesta obra, mantêm-se, agravam-se, perpetuam-se. Embora a obra nos faça rir das nossas desgraças, é com esse ridículo que despertamos - um pouco como o efeito balde de água fria.

 

publicado por Queirosiana às 16:28 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #11

AS CRÍTICAS

 

"Camilo preferiu não tornar pública a sua opinião. Só em carta privada, de 10 de Abril de 1872, fez saber a António Feliciano de Castilho o que pensava: «Tenho lido com espanto, e até com lágrimas no coração, o que aí se imprime contra o Imperados do Brasil. A garotice de As Farpas não tem sequer graça que lhe descontemos». (...)"

 

"Mas talvez que a polémica mais dura (...) tenha sido travada entre Eça e António Enes (...) o futuro comissário régio em Moçambique acusou Eça de, no artigo que escrever sobre Ávila, ter plagiado Alphonse Karr (...)"

 

In As Farpas (1ª edição Outubro de 2004), Introdução por Maria Filomena Mónica

 

publicado por Queirosiana às 16:20 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #10

Jornal de luta, jornal mordente, cruel, incisivo, cortante e sobretudo jornal revolucionário (...) São as Guêpes, de Karr, tratadas ao modo peninsular: mais fogo, mais vigor, mais violência e mais intenção. No estado em que se encontra o país, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução - não devem instruí-lo, nem cdoutriná-lo, nem discutir com ele - devem farpeá-lo. As Farpas são pois o trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote - postos aos serviço da revolução.

 

Numa Carta de Eça de Queiroz ao seu "condiscípulo em Coimbra", João Penha, explicando-lhe o objectivo d'As Farpas

 

publicado por Queirosiana às 16:15 | link do post | comentar

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