Sexta-feira, 23.09.11

O Mistério da Estrada de Sintra - O Filme

Texto da Autoria de Leonor, futura autora do Clube do Eça

 

 

Uma embarcação no meio de uma tempestade nocturna. Dois homens empunhando armas numa postura que denuncia claramente tratar-se de um duelo. Subitamente, tiros rasgam o ar.

Em simultâneo, uma estrada sombria, uma quadrilha que executa um rapto precipitado e… um Ramalho Ortigão muito assustado e intrigado quando se depara com um cadáver de um oficial britânico definhando/sucumbindo num sofá de uma casa senhorial.

Assim se inicia o filme “O Mistério da Estrada de Sintra”, realizado por Jorge Paixão da Costa e produzido pela FF FilmesFundo e Moonshot Pictures, com estreia em 2007.

Após um assalto no qual é confundido por Sidónio Pais, Ramalho Ortigão reconhece nesta situação o mote necessário para despertar as mentes torpes que deambulavam pela capital portuguesa e a inércia que adormecera o país. Eça de Queirós junta-se-lhe nesta empresa e ambos lançam-se na elaboração do que haveria de ser uma das primeiras obras de cunho policial, publicada no Diário de Notícias.

Lisboa é, no ano de 1870, uma “sociedade de costumes corrompidos, de consciências em debandada e caracteres corruptos” (citando o grupo dos “Vencidos da Vida” da adaptação), na qual o ofício da escrita é considerado como um modo de vida cuja qualidade é inferior; é antes um entretenimento, uma forma de lazer. Na verdade, a classe política apreciava o folhetim de forma supérflua e os interesses variavam em género: aos homens, deslumbravam-nos as temáticas políticas; às mulheres, nada como um romance fervoroso para lhes arrancar facilmente um suspiro. É neste sentido que Eça e Ramalho são os mais adequados para o desempenho da tarefa a que se propunham, sendo as personificações do romance e da política, respectivamente.

A questão premente era “Quem teria matado o oficial?” e, sobretudo, a razão que teria motivado semelhante crime. Desenrola-se então uma cativante sucessão de jogos de palavras, insinuações provocatórias, intrigas e olhares apaixonados.

Uma bela condessa de olhos azuis, presa a um casamento infeliz e solitária, possui o apoio do estimado primo V., o qual nutre uma paixão platónica com traços de sobreproteccionismo. Todo esta idolatria é ameaçada com o aparecimento do sedutor capitão inglês Rytmel, que de imediato cativa a frágil condessa. Ambos inflamados defensores da pátria (saliente-se o contexto da expansão colonialista britânica e concorrência que representava para Portugal), tanto o primo V. como Rytmel alimentam um ódio recíproco e tenso. Todos estes movimentos são observados pelos olhos latinos da fogosa Carmen, a qual, determinada a não perder o homem que ama para uma condessa – na sua opinião – sonsa, declara-lhe guerra e promete uma vingança desapiedada…

 

No entanto, o que começara por ser uma brincadeira literária para agitar as mentalidades estagnadas toma proporções assustadoras quando as personagens se transmutam para a realidade… Chantagens, desentimentos, discussões e possíveis rupturas cuja base radica no adultério melindram o curso da história e envolvem o espectador.

O que será que vai acontecer? Afinal, é um mistério ou uma multiplicidade deles?

 

 

 

É francamente recompensador quando obras portuguesas são projectadas para o grande ecrã, mesmo quando as adaptações não são totalmente fidedignas ao original porque de qualquer forma está a dar-se relevo a fragmentos da nossa identidade cultural que, na maioria das vezes, permanecem desconhecidas da população.

Por isso, a iniciativa de Jorge Paixão da Costa é de louvar e confesso que gostaria de ver mais trabalhos deste cariz a ser produzidos, os quais não sejam meramente com o propósito de celebrar datas comemorativas, à semelhança dos filmes de divulgação do Centenário da República (não retirando nenhum mérito a estes pois na verdade apreciei-os bastante).

“O Mistério da Estrada de Sintra” apresenta uma concepção fotográfica pensada e de excelente qualidade e um argumento cujos diálogos reflectem o humor sublime e a crítica social e cáustica de Eça, que ainda hoje permance contemporânea, apesar de tantos anos volvidos. Alberga ainda um elenco sólido com desempenhos notáveis, do qual saliento o de Ivo Canelas que, por detrás do monóculo, imprimia o cunho caricatural, a argúcia e o tom jocoso e sapiente  a que o escritor realista nos habituou.

Relativamente à cronologia e ao avançar da história, talvez o ritmo frenético e a conjugação entre ficção e realidade deixem o espectador algo confuso num primeiro momento, mas rapidamente o ultrapassa até alcançar o fim da história. Este talvez não seja tão apoteótico quanto seria de esperar após longos minutos de ansiedade proporcionados pelas intrigas e paixões, mas calculo que o que encerra seria um grave problema na altura…

Ouso dizer que este filme histórico pode igualar as fantásticas séries da BBC, pelo que o recomendo vivamente.

 

Link do trailer: http://www.youtube.com/watch?v=2p31hNKNjnI

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Quarta-feira, 02.03.11

O Mistério da Estrada de Sintra #35

O primeiro livro deste género em Portugal - mistério e suspense, data de 1871. Surge da ideia de Eça e Ramalho de "abanarem" a cidade de Lisboa com um dos Mistérios mais incríveis de sempre. A população acreditou quando leu a primeira carta do Doutor*** no Diário de Notícias, muitos ficaram receosos de andar pelas estradas de Sintra... durante dois meses Lisboa viveu na ânsia de saber mais sobre este mistério que se inicia com um morto deitado num sofá de uma casa desconhecida.


 


A história cativa-nos como cativou os leitores há dois séculos atrás, se bem que nós partimos da desvantagem de saber que é um romance e não uma situação verídica, a adrenalina seria muito maior se, como outros, acreditássemos na veracidade daquelas palavras. Ainda assim, deliciamo-nos com a história de amor entre Rytmel e a Condessa W. - em certos aspectos lembrei-me várias vezes de Anna Karenina e Vronsky (embora este só tenha sido publicado em 1873, portanto, nada de confusões plagiadas!). Carmén Puebla, também ela fortemente apaixonada por Rytmel, capitão inglês que parece quebrar os corações de todas as mulheres, surge como a personagem ciumenta e é um pouco a antecipação daquilo em que a Condessa W. se virá a transformar, também ela delicerada pelos ciúmes. Uma mulher despeitada é sempre um perigo. 


 


Mas como disse, tudo começa com um morto - razão pela qual o doutor*** e F. são raptados por um grupo de mascarados enquanto passeiam na estrada de Sintra, pois pretendem que o doutor*** confirme a morte e as suas causas. Chegados à casa misteriosa, pois é de localização desconhecida, é-nos apresentada outra personagem que primeiro se declara o assassino e que depois nega - falamos de A.M.C. um jovem médico de Viseu que entra neste enredo de forma suspeita mas com boas intenções. É pelo Mascarado Alto que conhecemos a história entre Rytmel e a Condessa. O culpado será julgado no fim, por este grupo de homens que, afinal de contas, circulam todos no mesmo meio.


 

publicado por Queirosiana às 14:25 | link do post | comentar
Segunda-feira, 28.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #34

UMA QUESTÃO DE HONRA




Já me surpreendera antes, com outras obras da época, mas com O Mistério da Estrada de Sintra aflorou-se novamente esta ideia de "honra". Existem inúmeras passagens no livro, pena não as ter assinalado todas, em que as personagens apelam à sua honra, à sua palavra como prova de confiança e verdade.


 


"(...) procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me à sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir, quanto antes, à redacção do Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo (...)"


 


Capítulo "Intervenção de Z"


 


"(...) As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anónimo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto íntimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor - culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões - a religião do carácter? (...)"


 


Capítulo "De F... Ao Médico", Parte IV


 


Hoje em dia já não se ouve este género de frases. O que dizemos tem de ser provado documentalmente, é o B.I. é a carta de condução - não estou a criticar, é apenas um facto - naquele tempo a questão da honra e da palavra era levada ao expoente. Apresentáva-mo-nos como "fulano tal" e ninguém duvidava. Jurávamos pela nossa honra e isso valia como prova de confiança, ética e de verdade. Hoje em dia tudo isto parece descartável. O que dizemos hoje, mais das vezes, tem poucas consequências no dia seguinte. Não chego ao ponto de afirmar que a "honra" se perdeu, mas enquanto ideal de ética do tempo de Eça de Queiroz sim, certamente.


 

publicado por Queirosiana às 11:44 | link do post | comentar
Domingo, 27.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #33

PERSONAGENS


 



  • Doutor***


Médico raptado na Estrada de Sintra para confirmar a morte/homicídio e quais as causas.



  • F.


Amigo do doutor*** raptado com ele. Escritor ilustre e conhecido.



  • A.M.C.


Médico originário de Viseu sobre quem incide a suspeita do homicídio. Noivo de Teresinha.



  • Z.


Amigo íntimo de A.M.C. que vem limpar o nome de Z.



  • Mascarado Alto


Um dos mascarados que rapta os dois amigos na estrada de Sintra e que nos conta a história de paixão entre a Condessa W. e Rytmel. Primo da Condessa W.



  • Condessa W. (Luísa)


A grande personagem feminina da obra. Ardente apaixonada de Rytmel.



  • Conde W.


Marido da Condessa W., muito rico.



  • Capitão Rytmel


Capitão inglês morto no início da história.



  • Carmén Puebla


Uma mulher espanhola casada com Nicázio e amante de Rytmel por quem se rói de ciúmes ao vê-lo com a Condessa W.



  • Nicázio Puebla


Marido de Carmén Puebla e que deseja ver-se livre dela.



  • Fradique Mendes


Amigo da Condessa W.



  • Miss Shorn


Mulher irlandesa que chama à atenção de Rytmel e por quem a Condessa W. sente ciúmes.



  • Frederico Friedlann


Cidadão Prussiano, com quem F. fala por uma frecha na parede e a quem entrega uma carta para o amigo doutor***.


 


 

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O Mistério da Estrada de Sintra #32

A QUESTÃO DA AUTORIA DA OBRA "O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA" II


 


"Pinheiro Chagas, bem a par deste caso, num artigo do Diário de Notícias de 19 de Junho de 1871, escreveu por seu turno: «Os leirores do D.N. conhecem já o Sr. Eça de Queiroz como um dos cúmplices daquele famosíssimo logro d'O Mistério da Estrada de Sintra, sabem que foi ele o colorista ardente dalguns dos mais brilhantes quadros desse livro.» Não tardou, pois, que os estudiosos identificassem os textos da autoria de Eça. A sua opinião tem sido unânime. São dele, além do prefácio da edição de 1885, o primeiro capítulo: «Exposição do doutor***»; «Intervenção de Z»; «Segunda Carta de Z»; «Narrativa do Mascarado Alto» e «A Confissão Dela». A Ramalho atribuem-se os três capítulos restantes".


 


A. Campos Matos


Eça de Queiroz - Ramalho Ortigão: Retrato da "Ramalhal Figura"


Pág. 40-41 (Capítulo 7)


Livros Horizonte, 2009


 



publicado por Queirosiana às 18:56 | link do post | comentar

O Mistério da Estrada de Sintra #31

(Lisboa, 1870)


Meu querido Eduardo(*)


 


(...) Para lhe dar uma ideia do estado de pobreza em q. me acho bastaria q. lhe diga que abati consecutivamente e que tenho inteiramente acabados os seis primeiros capítulos do romance q. V. há-de intitular (sem prejuízo de melhor escolha) O Mistério da Estrada de Sintra. Dois capítulos mais, q. estarão feitos dentro de dois dias, e estará completa a primeira parte d'esta obra, com a qual eu me quero apresentar diante dos críticos reclamando para mim o privilégio de ter cirado o tipo do romance-folhetim do período literário em que estamos. V. me dirá quando é que tem duas horas livres para me ouvir ler o que já está lançado ao papel... (...)


 


Amigo certo


Ramalho Ortigão




(*) Eduardo Coelho era o então Director do Diário de Notícias


publicado por Queirosiana às 18:22 | link do post | comentar

O Mistério da Estrada de Sintra #30

A QUESTÃO DA AUTORIA DA OBRA "O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA"


 


Graças à enorme ajuda deste livro (Eça de Queiroz - Ramalho Ortigão: Retrato da "Ramalhal Figura") comecei a perceber que a autoria desta obra não é totalmente clara. Tudo leva a crer, pela própria mão dos dois autores (nalguns textos já aqui disponibilizados), que "O Mistério da Estrada de Sintra" é uma obra de co-autoria entre Eça e Ortigão, e entenda-se, em partes iguais. Nos dias de hoje, os estudiosos vão mais além e atribuem maior relevância a Eça.


Contudo, por uma carta inédita de Ortigão (que colocarei aqui em breve), este revela-se o "grande" mentor de todo o enredo, atribuindo um papel altamente secundário ao colega e amigo. Pois bem, para quem já leu a obra, isso custa muito a crer, até porque encontramos nela várias personagens que irão surgir noutras obras exclusivas de Eça de Queiroz (Carmén Puebla - que virá a ser uma espécie de Concha ou Lola em "Os Maias" e até o próprio Fradique Mendes surge nesta obra pela primeiríssima vez)... ora, não querendo desfazer o papel de Ortigão aqui, parece-me exagerado querer ficar com os louros todos - é certo que esta foi das primeiras (se não a primeira) obras em Portugal a seguir este estilo policial/suspense, mas uma vez que ambos assinaram a obra, querer reivindicar para si o exclusivo a mesma (de acordo com o livro citado acima, Ortigão reclama a si a autoria de oito dos nove capítulos de O Mistério da Estrada de Sintra), para mais numa carta inédita que surge após a morte do amigo, não parece nada de bom tom.


 


 

publicado por Queirosiana às 18:05 | link do post | comentar

O Mistério da Estrada de Sintra #29

 



 


 


Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão


O Mistério da Estrada de Sintra


Livraria Clássica Editora


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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O Mistério da Estrada de Sintra #28


 


Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão


O Mistério da Estrada de Sintra


Livraria Lello & Irmão


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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Sábado, 26.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #27

 



 


Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão


O Mistério da Estrada de Sintra


Colecção Obras Completas de Eça de Queiroz


Livros do Brasil, (reimpressão) 2000


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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