Entrevista a Filomena Mónica

Trago aqui excertos de uma entrevista que encontrei nos confins da imensa internet. Uma entrevista feita a Maria Filomena Mónica (autora da biografia Eça de Queirós (2001) e da reedição d'As Farpas (2004) - a entrevista data de 18 de Março de 2006, realizada por João Céu & Silva Nuno Fox para o Diário de Notícias. 

 

(...) Além dessas excepções, Eça é ignorado como um clássico na literatura mundial!

 

Isso também é exagero porque ele é olhado por alguns como um clássico. O professor americano Harold Bloom inclui Eça de Queirós no seu livro sobre os cem génios da literatura mundial e vem referido em várias histórias do romance europeu. O que não quer dizer que seja lido, há pessoas que o apreciam, mas ele tem dificuldade em penetrar por várias razões, entre elas a de não estar traduzido ou bem traduzido. (...) Os estrangeiros não entendem o Eça de Queirós porque é um escritor com uma forte veia satírica e para perceberem a graça daquilo têm de conhecer Portugal e compreender o que está a fazer troça. Os estrangeiros não entendem aquela ironia! (...)

 

 

Não é uma contradição que alguém que se julgava tão genial acabe por ter apenas leitores portugueses?


Eu pensei bastante nisso, porque é que a certa altura ele não se tornou bilingue. (...) Eça saiu de Portugal pela primeira vez aos 27 anos - nunca tinha saído antes, a não ser umas semanas na Palestina - e com essa idade é praticamente impossível alguém tornar-se bilingue ou dominar outra língua. Por muito que aprendesse a escrever em inglês, nunca iria fazê-lo como em português, sabia que estava a ser prejudicado por isso e que teria um público muito reduzido. Essa foi a razão de não ter publicado em vida alguns livros, o Conde de Abranhos ou A Capi tal, porque sabia que se o fizesse não tornava a pôr os pés em Portugal.

 

Não se quis internacionalizar?


Em Eça há algo ainda mais estranho. Por arrogância e timidez não se deu com nenhum estrangeiro e em Paris ainda ficou mais misantropo e fechou-se em casa. O único escritor que visitou foi Zola, que era o contrário do Eça, pois gostava de receber em casa às quartas e até afirmou que o Eça era espantoso, melhor que Flaubert. Bastou o Eça ir lá um dia, imagine-se se fosse uma pessoa expansiva! Optou, por temperamento, pela escrita para a posteridade.

 

E fazer uma obra que envelheceria, difícil para as novas gerações...


A obra de Eça é difícil até pelo vocabulário, porque inaugurou um novo idioma. Até ele escrevia-se de uma maneira e a partir daí surge o português moderno. É muito mais difícil ler o Camilo, que está ligado ao Portugal rural, ao português vernáculo e à retórica fradesca. A grande revolução é o Eça, a partir dele o português é o que nós falamos. Quando estava a fazer a reedição de As Farpas tive de elaborar um glossário porque os meus alunos desconheciam as palavras. Mas as pessoas continuam a usar muitas frases suas. (...)

 

Entrevista integral aqui

 

 

publicado por Queirosiana às 14:44 | link do post | comentar