Segunda-feira, 07.03.11

As Farpas (1871-1972) #17

O romance, esse é a apoteose do adultério. Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem drama, nem personagens. Júlia pálida, casada com António gordo, atira com as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre esta acção de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1850!

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

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As Farpas (1871-1972) #16

A propósito do estado da política da época, Eça escreve:

 

Os lustres estão acesos; o país é expectador distraído: nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e acha-os todos impuros e nulos; não se interessa pelas cenas e acha-as todas inúteis e imorais; não se interessa pela decoração e julga-a ridícula. Só às vezes, no meio do seu tédio, se lembra que para poder ver teve que pagar no bilheteiro!

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

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Domingo, 06.03.11

As Farpas (1871-1972) #15

O corpo legislativo (...) Às vezes procura viver, mover-se, e demonstra então, em rpovas incessantes, a sua incapacidade orgânica para discutir, para pensar, para criar, para dirigir, para resolver a questão mais rudimentar de administração. (...) O parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, intrigar um pouco, e combinar partidas de whist. O parlamento é uma sucursal do Grémio. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


publicado por Queirosiana às 20:30 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #14

Apesar disso a esta política infiel aos seus principios, vivendo num perpétuo desmentido de si mesma, desautorizada, apupada, pede ainda uma multidão inumerável de simples a salvação da coisa pública. É trágico, como se se pedisse a um bobo paralítico mais uma cambalhota ou mais um chiste.

 

O orgulho da política nacional é ser doutrinária. Cada um diz: - sou doutrinário, eu! - Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos; é ter deles por consequência o mínimo; é não ser de partido nenhum - ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 11:37 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #13

Nós não quisemos se cúmplices na indiferença universal. E aqui começamos serenamente, sem injustiça e sem cólera, a apontar dia por dia o que poderíamos chamar - o progresso da decadência. (...) Não sabemos se a mão que vamos abrir está ou não cheia de verdades. Sabemos que está cheia de negativas. Não sabemos, talvez, onde se deva ir;sabemos decerto, onde se não deve estar. (...) E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal. (...) Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

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Sábado, 05.03.11

As Farpas (1871-1972) #12

O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

Não estranhem qualquer coincidência com a realidade actual, ou pelo menos, estranhem e depois entranhem. N'As Farpas, esta quase assustadora semelhança com a actualidade acontece de página para página. É um livro essencial para compreendermos este nosso país e para nos apercebermos da falta de originalidade que nos persegue desde o séc. XIX, uma vez que as críticas ferozes que Eça e Ortigão fazem nesta obra, mantêm-se, agravam-se, perpetuam-se. Embora a obra nos faça rir das nossas desgraças, é com esse ridículo que despertamos - um pouco como o efeito balde de água fria.

 

publicado por Queirosiana às 16:28 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #11

AS CRÍTICAS

 

"Camilo preferiu não tornar pública a sua opinião. Só em carta privada, de 10 de Abril de 1872, fez saber a António Feliciano de Castilho o que pensava: «Tenho lido com espanto, e até com lágrimas no coração, o que aí se imprime contra o Imperados do Brasil. A garotice de As Farpas não tem sequer graça que lhe descontemos». (...)"

 

"Mas talvez que a polémica mais dura (...) tenha sido travada entre Eça e António Enes (...) o futuro comissário régio em Moçambique acusou Eça de, no artigo que escrever sobre Ávila, ter plagiado Alphonse Karr (...)"

 

In As Farpas (1ª edição Outubro de 2004), Introdução por Maria Filomena Mónica

 

publicado por Queirosiana às 16:20 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #9

A 17 de Junho de 1817, começaram a aparecer, nas bancas de Lisboa, uns opúsculos de capa alaranjada, decorados com o diabo de Asmodeus (...) ostentando o título As Farpas. Na vertical, figurava o nome de Eça de Queiroz e, na horizontal, o de Ramalho Ortigão. Os caderninhos, cujo subtítulo era Crónica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes, tinham cerca de 100 páginas. (...)

 

O primeiro número de As Farpas esgotou-se rapidamente. A tiragem, à volta dos 2000 exemplares, foi crescendo durante os primeiros tempos. (...) A publicação surgiu na vigência do 33º governo Constitucional, presidido por Ávila. Era um momento de crise. A Guerra do Paraguai (1864-1870) interrompera a remessa da poupança dos emigrantes, uma fonte essencial para a economia e as finanças do País. A cotação dos fundos públicos havia descido, as exportações diminuído e a dívida flutuante aumentado. À crise económica, sobrepunha-se todavia a crise política. Incapazes de resolver os problemas, os Governos sucediam-se a um ritmo vertiginoso. (..)

 

Eça tinha então 26 anos, uma idade em que é normal ter ilusões: acreditava, por exemplo, que era possível mudar o país através do riso. Tanto ele quanto Ramalho queriam usar o humor como forma de destruir o que consideravam instituições caducas, embora Eça tivesse desde sempre albergado reticências quanto ao pendor didáctico que o amigo desejava conferir à publicação. Mas não foi apenas o zelo reformista que levou Eça até As Farpas, e sim, sobretudo, o desemprego. (...)

 

Durante uma conversa com Ramalho, veio-lhe a ideia de escreverem uns opúsculos semelhantes aos que A. Karr, sob o título de "Les Guêpes", editara, durante a Monarquia de Julho em França (...) O inimigo principal de As Farpas eram os políticos. (...)

 

Há muito que se praticava a sátira em Portugal, mas o tom de As Farpas era inédito. Embora, ao longo dos anos, se tivessem publicado muitos panfletos, estes caracterizavam-se por uma graça pesada, populista, antiquada. As Farpas não retiram a sua força, como A Besta Esfolada, da nostalgia pela monarquia absoluta, mas da raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851.

 

In As Farpas (1ª edição Outubro de 2004), Introdução por Maria Filomena Mónica 

 

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Domingo, 27.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #32

A QUESTÃO DA AUTORIA DA OBRA "O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA" II


 


"Pinheiro Chagas, bem a par deste caso, num artigo do Diário de Notícias de 19 de Junho de 1871, escreveu por seu turno: «Os leirores do D.N. conhecem já o Sr. Eça de Queiroz como um dos cúmplices daquele famosíssimo logro d'O Mistério da Estrada de Sintra, sabem que foi ele o colorista ardente dalguns dos mais brilhantes quadros desse livro.» Não tardou, pois, que os estudiosos identificassem os textos da autoria de Eça. A sua opinião tem sido unânime. São dele, além do prefácio da edição de 1885, o primeiro capítulo: «Exposição do doutor***»; «Intervenção de Z»; «Segunda Carta de Z»; «Narrativa do Mascarado Alto» e «A Confissão Dela». A Ramalho atribuem-se os três capítulos restantes".


 


A. Campos Matos


Eça de Queiroz - Ramalho Ortigão: Retrato da "Ramalhal Figura"


Pág. 40-41 (Capítulo 7)


Livros Horizonte, 2009


 



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Sexta-feira, 25.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #17

E depois é cruel, e é forçoso dizê-lo: há sempre um momento em que uma mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades morais do seu amante que a dominaram. (...) E há uma profunda humilhação em nossa consciência quando nos chegamos a convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas ideias e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um não-sei-que, em que entra talvez a cor do seu cabelo e o nó da sua gravata. Sejamos francas: para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das nossas preferências? (...)


 


Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tédio assaltadas de quimeras; tive os meus romances íntimos, que nasciam, sofriam, morriam entre duas flores do meu bordado. Criei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramáticas aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto do fogão. (...) Experimentei eu também os sobressaltos da paixão - e nunca vi, nunca soube que estas imaginações, que estas atracções nascessem de uma verdade da natureza, da lógica das circunstâncias, da irreparável acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo efémero, romântico, literário, fictício, que habita no cérebro de todas as mulheres.


 


O Mistério da Estrada de Sintra,  Capítulo "A Confissão Dela.", Parte III


 


 



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