Sábado, 05.03.11

As Farpas (1871-1972) #10

Jornal de luta, jornal mordente, cruel, incisivo, cortante e sobretudo jornal revolucionário (...) São as Guêpes, de Karr, tratadas ao modo peninsular: mais fogo, mais vigor, mais violência e mais intenção. No estado em que se encontra o país, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução - não devem instruí-lo, nem cdoutriná-lo, nem discutir com ele - devem farpeá-lo. As Farpas são pois o trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote - postos aos serviço da revolução.

 

Numa Carta de Eça de Queiroz ao seu "condiscípulo em Coimbra", João Penha, explicando-lhe o objectivo d'As Farpas

 

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Sexta-feira, 04.03.11

Cartas

Ernesto Chardron foi o editor de Eça de Queiroz. Nesta carta, vemos que a relação entre ambos não era um mar de rosas.

 

"Realmente, meu prezado amigo, seria simplesmente jocoso o querer persuadir-me que a publicação dos meus livros tem sido para si causa de perdas e transtornos; e não é menos curiosa a insistência com que V. Ex.cia às vezes me reclama trabalho. Que eu esteja doente, ou tenha afazeres, ou esteja sem verve - é-lhe perfeitamente indiferente; e as minhas conveniências, ou as minhas condições de espírito não lhe merecem a mínima consideração: o essencial é que eu produza tantas folhas de prosa por dia, como um negro deve cortar uma certa porção de cana-de-açúcar. Eu digo-lhe isto, meu prezado amigo, em perfeita harmonia e a rir; e mesmo se V. Exª relesse as cartas que às vezes me escreve riria também, a sangue frio, do despotismo com que me impõe tarefas - como se eu não fosse um homem livre, num país livre."

 

Carta de Eça de Queiroz dirigida a Ernestro Chardron (5 de Fevereiro de 1879)

 


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Segunda-feira, 28.02.11

As Farpas (1871-1872) #5

"São uma colecção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estão impressas" e descreve-as como "unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, mais altas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa". (...) "todo este livro é um riso que peleja"


 


Numa carta de Eça de Queiroz a Ramalho Ortigão de 24 Outubro de 1890


 



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Domingo, 27.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #31

(Lisboa, 1870)


Meu querido Eduardo(*)


 


(...) Para lhe dar uma ideia do estado de pobreza em q. me acho bastaria q. lhe diga que abati consecutivamente e que tenho inteiramente acabados os seis primeiros capítulos do romance q. V. há-de intitular (sem prejuízo de melhor escolha) O Mistério da Estrada de Sintra. Dois capítulos mais, q. estarão feitos dentro de dois dias, e estará completa a primeira parte d'esta obra, com a qual eu me quero apresentar diante dos críticos reclamando para mim o privilégio de ter cirado o tipo do romance-folhetim do período literário em que estamos. V. me dirá quando é que tem duas horas livres para me ouvir ler o que já está lançado ao papel... (...)


 


Amigo certo


Ramalho Ortigão




(*) Eduardo Coelho era o então Director do Diário de Notícias


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Sexta-feira, 25.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #18

A ÚLTIMA CARTA


 


Senhor Redactor do Diário de Notícias. - Podendo causar reparo que em toda a narrativa que há dois meses se publica no folhetim do seu periódico não haja um só nome que não seja suposto, nem um só lugar que não seja hipotético, fica V. autorizado por via destas letras a datar o desfecho da aludida história - de Lisboa, aos vinte e sete dias do mês de Setembro de 1870, e a subscrevê-la com os nomes do dois signatários desta carta.


 


Temos a honra de ser, etc.


 


Eça de Queiroz


Ramalho Ortigão.

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Terça-feira, 22.02.11

O Mistério da Estrada de Sintra #9

" Foi na sua volta do Oriente que Queiroz se encontrou comigo em Lisboa. Não tinhamos nada que fazer, nem um nem outro, e íamos uma noite passeando ao acaso, quando nos ocorreu darmos à cidade alguma coisa que ler para o outro dia. (...) A nossa questão era simplesmente - que nos lessem. (...) Então, em acto contínuo, um de nós - não me lembro qual - sentou-se a uma mesa e encheu um caderno de papel, que o Diário de Notícias principiou a publicar ao outro dia. Depois, o que principiara passou a pena ao outro, e assim fomos escrevendo sempre, revezadamente, por espaço de dois meses, acompanhando a publicação, e fazendo na véspera o folhetim do outro dia. Foi deste modo que nasceu O Mistério da Estrada de Sintra. (...) O único merecimento do livro é talvez esse, e o de algumas páginas vivas, quentes, cheias de exuberância, de cor e de poder de estilo devidas a Queiroz"


 


Outubro de 1874, Ramalho Ortigão, n' As Farpas (II volume), ao escrever um artigo evocativo do amigo


 


 



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Sábado, 22.01.11

O Mistério da Estrada de Sintra #7

"Já lhe agradeci e li O Mistério da Estrada de Cintra. Achei-o admirável pelas brilhantes audacias de linguagem. Foi este livro que iniciou a reforma das milicias litterarias indígenas, a tropa fandanga de que eu fiu cabo de esquadra. A evolução do estylo data d'ahi. (...) O mystério há de ficar assignalado no desenvolvimento das bellas cousas que estavam embryonarias no vocabulario marasmado durante dois séculos.".


 


Alfredo Cunha (Director do DN), numa carta ao editor António Maria Pereira, dirigida por Camilo Castelo Branco


 



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Terça-feira, 18.01.11

Bom Senso e Bom Gosto - Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho

Depois de ler tanta informação sobre a Questão Coimbrã, achei essencial fazer uma pequena incursão a este livro de Antero de Quental, a obra que inflamou o Portugal do séc. XIX. Deixo aqui um excerto.


 


 




 


 


"Acabo de ler um escripto e v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.


 


Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos. (...)


 


Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarempor suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual.


 


V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime—commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. (...) nnovar é dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: «ha alguma cousa que vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do circulo que se vê com os vossos oculos de theatro; ha mundo maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é intoleravel! Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! Contra isto, sim, ás armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!... (...)


 


Coimbra 2 de Novembro de 1865.


 


Nem admirador nem respeitador


 


Anthero do Quental"


 


 




 


Texto integral aqui.



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