Quarta-feira, 02.03.11

O Mistério da Estrada de Sintra #35

O primeiro livro deste género em Portugal - mistério e suspense, data de 1871. Surge da ideia de Eça e Ramalho de "abanarem" a cidade de Lisboa com um dos Mistérios mais incríveis de sempre. A população acreditou quando leu a primeira carta do Doutor*** no Diário de Notícias, muitos ficaram receosos de andar pelas estradas de Sintra... durante dois meses Lisboa viveu na ânsia de saber mais sobre este mistério que se inicia com um morto deitado num sofá de uma casa desconhecida.


 


A história cativa-nos como cativou os leitores há dois séculos atrás, se bem que nós partimos da desvantagem de saber que é um romance e não uma situação verídica, a adrenalina seria muito maior se, como outros, acreditássemos na veracidade daquelas palavras. Ainda assim, deliciamo-nos com a história de amor entre Rytmel e a Condessa W. - em certos aspectos lembrei-me várias vezes de Anna Karenina e Vronsky (embora este só tenha sido publicado em 1873, portanto, nada de confusões plagiadas!). Carmén Puebla, também ela fortemente apaixonada por Rytmel, capitão inglês que parece quebrar os corações de todas as mulheres, surge como a personagem ciumenta e é um pouco a antecipação daquilo em que a Condessa W. se virá a transformar, também ela delicerada pelos ciúmes. Uma mulher despeitada é sempre um perigo. 


 


Mas como disse, tudo começa com um morto - razão pela qual o doutor*** e F. são raptados por um grupo de mascarados enquanto passeiam na estrada de Sintra, pois pretendem que o doutor*** confirme a morte e as suas causas. Chegados à casa misteriosa, pois é de localização desconhecida, é-nos apresentada outra personagem que primeiro se declara o assassino e que depois nega - falamos de A.M.C. um jovem médico de Viseu que entra neste enredo de forma suspeita mas com boas intenções. É pelo Mascarado Alto que conhecemos a história entre Rytmel e a Condessa. O culpado será julgado no fim, por este grupo de homens que, afinal de contas, circulam todos no mesmo meio.


 

publicado por Queirosiana às 14:25 | link do post | comentar
Segunda-feira, 28.02.11

As Farpas (1871-1872) #8

 



 


 


Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão


As Farpas


Coordenação Maria Filomena Mónica


Principia, 2007


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

publicado por Queirosiana às 17:33 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #7

Em estreita consonância com o pensamento revolucionário do Realismo, alguns dos homens do tempo dedicam-se à literatura de combate, doutrinária, panfletária, obra de propaganda e de acção civilizadora. Para realizá-la, empregam indirectamente a prosa de ficção e a poesia, e directamente o panfleto e o folhetim. A primeira publicação no género destes últimos foram As Farpas, aparecidas em 1871, no ano mesmo das Conferências do Casino Lisbonense, decerto inspiradas em Les Guépes (1839-1849), do Francês Alphonse Karr (1808-1890), e escritas em colaboração por Eça e Ramalho Ortigão: o primeiro, até 1872, quando ingressa na carreira diplomática, e o segundo, dali por diante, até 1882. Em 1887, As Farpas voltam a circular por três anos, ainda sob a direcção de Ramalho, o mesmo acontecendo entre 1911 e 1915. Nessas sucessivas reaparições, o periódico foi sofrendo gradual metamorfose, que, entretanto, não lhe altera o carácter originário de órgão polémico e crítico da sociedade Portuguesa. (...)


 


Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo


 


Texto Integral no Blogue Aula de Literatura Portuguesa


 

publicado por Queirosiana às 15:30 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #6

No mesmo ano em que decorrem as Conferências do Casino, e orientada no mesmo sentido de crítica geral da sociedade portuguesa, aparece uma publicação mensal redigida por Eça de Queirós e por Ramalho Ortigão - As Farpas . Cada número constituía um comentário crítico e satírico aos acontecimentos e instituições, orientado segundo um ideário cuja principal fonte era, então, a obra de Proudhon.



O artigo inicial, redigido por Eça de Queirós, sobre o Estado Social de Portugal em 1871, faz um juízo muito demolidor da vida social, económica e política, da religião, da opinião pública, do jornalismo e da literatura. Este artigo importa muito, porque nos dá, como veremos, o travejamento doutrinário da obra de Eça de Queirós desde O Crime do Padre Amaro até a Os Maias . Sob o aspecto literário, criticava Eça o lirismo tradicional de "pequeninas sensibilidades pequeninamente contadas por pequeninas vozes", onde, de todo o vasto universo, apenas se ouve "o rumor das saias de Elvira"; lirismo convencional e hipócrita, que nem exprime o temperamento do poeta nem satisfaz a tendência da sociedade - e, por cima disso, imoral. Criticava o romance passional, apoteose do adultério, com nefastas consequências na educação feminina, a qual ainda o preocupará em duas Farpas de 1872; o teatro, que se limitava a decalcar declamações de obras conhecidas; etc.



Desde a saída de Eça de Queirós para Cuba, em fins de 1872, no início da sua carreira diplomática, Ramalho manteve sozinho as Farpas, que continuaram a sair, aliás irregularmente, até 1882, alterando profundamente o seu espírito. (...)


 


Mas sem Eça perderam as Farpas o seu mentor. Faltava a Ramalho um ideário definido e o dom da ironia. À direcção de Eça sucede em Ramalho a influência de Teófilo Braga, que o leva a transitar do proudhonismo para o positivismo. As Farpas tornam-se mais descritivas, enchem-se de pitoresco regional, e ao mesmo tempo adquirem um tom didáctico. (...)


 


História da Literatura Portuguesa (DVD)
Porto Editora


 


Texto Integral no Blogue Aula de Literatura Portuguesa


 

publicado por Queirosiana às 14:23 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #5

"São uma colecção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estão impressas" e descreve-as como "unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, mais altas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa". (...) "todo este livro é um riso que peleja"


 


Numa carta de Eça de Queiroz a Ramalho Ortigão de 24 Outubro de 1890


 



publicado por Queirosiana às 14:21 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #4

As Farpas são crónicas publicadas mensalmente da autoria de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Porém, a nomeação de Eça como Cônsul de Havana obrigam-no a abandonar o projecto. (...)


 


As Farpas são, assim, uma admirável caricatura da sociedade da época. Altamente críticos e irónicos, estes artigos satirizam, com muito humor à mistura, a imprensa e o jornalismo partidário ou banal; a Regeneração, e todas as suas repercussões, não só a nível político mas também económico, cultural, social e até moral; a religião e a fé católica; a mentalidade vigente, com a segregação do papel social da mulher; a literatura romântica, falsa e hipócrita.


As Farpas são, assim, um novo e inovador conceito de jornalismo - o jornalismo de ideias, de crítica social e cultural.


 


"Eça não se limita, todavia, a galhofar. As suas Farpas constituem um sistemático e quase que completo curso de sociologia do Portugal da Regeneração, observado de alto a baixo, nas câmaras e nas ruas, nos mercados e nas prisões, nos gabinetes da administração e nas praias onde labutam e naufragam pescadores, nas salas domésticas onde se entendiam pescadores e tomam chá com torradas as famílias, nas igrejas onde rezam beatas ou se realizam eleições, nos teatros onde se representam peças pífias e mal traduzidas, nas redacções onde se panteia em péssimo jornalismo, o que sucede tanto em matéria de política como em casos mais triviais do dia a dia do país."*


 


*In Dicionário de Eça de Queirós, pág. 264.


 


INFORMAÇÃO RETIRADA DO SITE CITI

publicado por Queirosiana às 13:17 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #3


 


AS FARPAS
As farpas : chronica mensal da politica das letras e dos costumes / Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz. - 1871-s. 4, n. 3 (Jun. 1883). - Lisboa : Typ. Universal, 1871-1883. - 14 cm http://purl.pt/256

publicado por Queirosiana às 12:08 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #2

A DIVISÃO


 



  • As Farpas "O País e a Sociedade Portuguesa" (1871-1872), Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

  • As Farpas "O País e a Sociedade Portuguesa" (1872-1882), Ramalho Ortigão

  • As Farpas - Uma Campanha Alegre I e II (1890), Eça de Queiroz

  • As Farpas - 11 volumes (1887-1890), Ramalho Ortigão

  • As Farpas Esquecidas (publicadas 1946-1947), Ramalho Ortigão

  • As Últimas Farpas (publicadas 1946; escritas entre 1911-1915), Ramalho Ortigão

publicado por Queirosiana às 11:59 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1872) #1


 


 


Este será o próximo desafio: Ler "As Farpas" da autoria de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão.


 

publicado por Queirosiana às 11:54 | link do post | comentar

O Mistério da Estrada de Sintra #34

UMA QUESTÃO DE HONRA




Já me surpreendera antes, com outras obras da época, mas com O Mistério da Estrada de Sintra aflorou-se novamente esta ideia de "honra". Existem inúmeras passagens no livro, pena não as ter assinalado todas, em que as personagens apelam à sua honra, à sua palavra como prova de confiança e verdade.


 


"(...) procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me à sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir, quanto antes, à redacção do Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo (...)"


 


Capítulo "Intervenção de Z"


 


"(...) As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anónimo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto íntimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor - culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões - a religião do carácter? (...)"


 


Capítulo "De F... Ao Médico", Parte IV


 


Hoje em dia já não se ouve este género de frases. O que dizemos tem de ser provado documentalmente, é o B.I. é a carta de condução - não estou a criticar, é apenas um facto - naquele tempo a questão da honra e da palavra era levada ao expoente. Apresentáva-mo-nos como "fulano tal" e ninguém duvidava. Jurávamos pela nossa honra e isso valia como prova de confiança, ética e de verdade. Hoje em dia tudo isto parece descartável. O que dizemos hoje, mais das vezes, tem poucas consequências no dia seguinte. Não chego ao ponto de afirmar que a "honra" se perdeu, mas enquanto ideal de ética do tempo de Eça de Queiroz sim, certamente.


 

publicado por Queirosiana às 11:44 | link do post | comentar

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