Sábado, 05.03.11

As Farpas (1871-1972) #11

AS CRÍTICAS

 

"Camilo preferiu não tornar pública a sua opinião. Só em carta privada, de 10 de Abril de 1872, fez saber a António Feliciano de Castilho o que pensava: «Tenho lido com espanto, e até com lágrimas no coração, o que aí se imprime contra o Imperados do Brasil. A garotice de As Farpas não tem sequer graça que lhe descontemos». (...)"

 

"Mas talvez que a polémica mais dura (...) tenha sido travada entre Eça e António Enes (...) o futuro comissário régio em Moçambique acusou Eça de, no artigo que escrever sobre Ávila, ter plagiado Alphonse Karr (...)"

 

In As Farpas (1ª edição Outubro de 2004), Introdução por Maria Filomena Mónica

 

publicado por Queirosiana às 16:20 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #10

Jornal de luta, jornal mordente, cruel, incisivo, cortante e sobretudo jornal revolucionário (...) São as Guêpes, de Karr, tratadas ao modo peninsular: mais fogo, mais vigor, mais violência e mais intenção. No estado em que se encontra o país, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução - não devem instruí-lo, nem cdoutriná-lo, nem discutir com ele - devem farpeá-lo. As Farpas são pois o trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote - postos aos serviço da revolução.

 

Numa Carta de Eça de Queiroz ao seu "condiscípulo em Coimbra", João Penha, explicando-lhe o objectivo d'As Farpas

 

publicado por Queirosiana às 16:15 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #9

A 17 de Junho de 1817, começaram a aparecer, nas bancas de Lisboa, uns opúsculos de capa alaranjada, decorados com o diabo de Asmodeus (...) ostentando o título As Farpas. Na vertical, figurava o nome de Eça de Queiroz e, na horizontal, o de Ramalho Ortigão. Os caderninhos, cujo subtítulo era Crónica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes, tinham cerca de 100 páginas. (...)

 

O primeiro número de As Farpas esgotou-se rapidamente. A tiragem, à volta dos 2000 exemplares, foi crescendo durante os primeiros tempos. (...) A publicação surgiu na vigência do 33º governo Constitucional, presidido por Ávila. Era um momento de crise. A Guerra do Paraguai (1864-1870) interrompera a remessa da poupança dos emigrantes, uma fonte essencial para a economia e as finanças do País. A cotação dos fundos públicos havia descido, as exportações diminuído e a dívida flutuante aumentado. À crise económica, sobrepunha-se todavia a crise política. Incapazes de resolver os problemas, os Governos sucediam-se a um ritmo vertiginoso. (..)

 

Eça tinha então 26 anos, uma idade em que é normal ter ilusões: acreditava, por exemplo, que era possível mudar o país através do riso. Tanto ele quanto Ramalho queriam usar o humor como forma de destruir o que consideravam instituições caducas, embora Eça tivesse desde sempre albergado reticências quanto ao pendor didáctico que o amigo desejava conferir à publicação. Mas não foi apenas o zelo reformista que levou Eça até As Farpas, e sim, sobretudo, o desemprego. (...)

 

Durante uma conversa com Ramalho, veio-lhe a ideia de escreverem uns opúsculos semelhantes aos que A. Karr, sob o título de "Les Guêpes", editara, durante a Monarquia de Julho em França (...) O inimigo principal de As Farpas eram os políticos. (...)

 

Há muito que se praticava a sátira em Portugal, mas o tom de As Farpas era inédito. Embora, ao longo dos anos, se tivessem publicado muitos panfletos, estes caracterizavam-se por uma graça pesada, populista, antiquada. As Farpas não retiram a sua força, como A Besta Esfolada, da nostalgia pela monarquia absoluta, mas da raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851.

 

In As Farpas (1ª edição Outubro de 2004), Introdução por Maria Filomena Mónica 

 

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Sexta-feira, 04.03.11

Cartas

Ernesto Chardron foi o editor de Eça de Queiroz. Nesta carta, vemos que a relação entre ambos não era um mar de rosas.

 

"Realmente, meu prezado amigo, seria simplesmente jocoso o querer persuadir-me que a publicação dos meus livros tem sido para si causa de perdas e transtornos; e não é menos curiosa a insistência com que V. Ex.cia às vezes me reclama trabalho. Que eu esteja doente, ou tenha afazeres, ou esteja sem verve - é-lhe perfeitamente indiferente; e as minhas conveniências, ou as minhas condições de espírito não lhe merecem a mínima consideração: o essencial é que eu produza tantas folhas de prosa por dia, como um negro deve cortar uma certa porção de cana-de-açúcar. Eu digo-lhe isto, meu prezado amigo, em perfeita harmonia e a rir; e mesmo se V. Exª relesse as cartas que às vezes me escreve riria também, a sangue frio, do despotismo com que me impõe tarefas - como se eu não fosse um homem livre, num país livre."

 

Carta de Eça de Queiroz dirigida a Ernestro Chardron (5 de Fevereiro de 1879)

 


publicado por Queirosiana às 22:26 | link do post | comentar

Eça Caricaturado #1

 

Desenho para a página dedicada a caricatura de figuras da literatura nacional e mundial chamada Escritório Gráfico. Publicado na revista NORTE, cultura no sul do mundo, da Arquipélago Editorial. Técnica mista sobre papel.

 

Fonte

publicado por Queirosiana às 19:24 | link do post | comentar

Eça de Queiroz e os Seus Clones

António Eça de Queiroz

Eça de Queiroz e os Seus Clones

Editora Guerra&Paz, 2006

 

O bisneto de Eça de Queiroz, António Eça de Queiroz, jornalista do "Expresso", escreveu um livro polémico, com uma intenção muito simples: preservar a imagem autêntica do seu bisavô, contestando algumas das visões e leituras propostas por pretensos especialistas. É um livro muito directo, que chama "clones" aos "Eças" que alguns inventam e diz porquê. O autor sustenta que, a pretexto do interesse por Eça, há personalidades que se servem do grande escritor como mero veículo de promoção pessoal, e ataca o que diz serem "alguns auto-nomeados especialistas" como seja o caso de José Hermano Saraiva, Agustina Bessa- Luís, João Gaspar Simões e Maria Filomena Mónica.

 

 

publicado por Queirosiana às 19:15 | link do post | comentar
Quarta-feira, 02.03.11

Entrevista a Filomena Mónica

Trago aqui excertos de uma entrevista que encontrei nos confins da imensa internet. Uma entrevista feita a Maria Filomena Mónica (autora da biografia Eça de Queirós (2001) e da reedição d'As Farpas (2004) - a entrevista data de 18 de Março de 2006, realizada por João Céu & Silva Nuno Fox para o Diário de Notícias. 

 

(...) Além dessas excepções, Eça é ignorado como um clássico na literatura mundial!

 

Isso também é exagero porque ele é olhado por alguns como um clássico. O professor americano Harold Bloom inclui Eça de Queirós no seu livro sobre os cem génios da literatura mundial e vem referido em várias histórias do romance europeu. O que não quer dizer que seja lido, há pessoas que o apreciam, mas ele tem dificuldade em penetrar por várias razões, entre elas a de não estar traduzido ou bem traduzido. (...) Os estrangeiros não entendem o Eça de Queirós porque é um escritor com uma forte veia satírica e para perceberem a graça daquilo têm de conhecer Portugal e compreender o que está a fazer troça. Os estrangeiros não entendem aquela ironia! (...)

 

 

Não é uma contradição que alguém que se julgava tão genial acabe por ter apenas leitores portugueses?


Eu pensei bastante nisso, porque é que a certa altura ele não se tornou bilingue. (...) Eça saiu de Portugal pela primeira vez aos 27 anos - nunca tinha saído antes, a não ser umas semanas na Palestina - e com essa idade é praticamente impossível alguém tornar-se bilingue ou dominar outra língua. Por muito que aprendesse a escrever em inglês, nunca iria fazê-lo como em português, sabia que estava a ser prejudicado por isso e que teria um público muito reduzido. Essa foi a razão de não ter publicado em vida alguns livros, o Conde de Abranhos ou A Capi tal, porque sabia que se o fizesse não tornava a pôr os pés em Portugal.

 

Não se quis internacionalizar?


Em Eça há algo ainda mais estranho. Por arrogância e timidez não se deu com nenhum estrangeiro e em Paris ainda ficou mais misantropo e fechou-se em casa. O único escritor que visitou foi Zola, que era o contrário do Eça, pois gostava de receber em casa às quartas e até afirmou que o Eça era espantoso, melhor que Flaubert. Bastou o Eça ir lá um dia, imagine-se se fosse uma pessoa expansiva! Optou, por temperamento, pela escrita para a posteridade.

 

E fazer uma obra que envelheceria, difícil para as novas gerações...


A obra de Eça é difícil até pelo vocabulário, porque inaugurou um novo idioma. Até ele escrevia-se de uma maneira e a partir daí surge o português moderno. É muito mais difícil ler o Camilo, que está ligado ao Portugal rural, ao português vernáculo e à retórica fradesca. A grande revolução é o Eça, a partir dele o português é o que nós falamos. Quando estava a fazer a reedição de As Farpas tive de elaborar um glossário porque os meus alunos desconheciam as palavras. Mas as pessoas continuam a usar muitas frases suas. (...)

 

Entrevista integral aqui

 

 

publicado por Queirosiana às 14:44 | link do post | comentar

Eça de Queirós

Maria Filomena Mónica

Eça de Queirós

Livros Quetzal, 2001

 

Fazendo o balanço das comemorações do centenário da morte de Eça de Queirós, esta nova biografia do autor de "Os Maias", é um dos melhores contributos para o conhecimento daquele que muitos consideram o maior romancista português de sempre. Maria Filomena Mónica, especialista no século XIX, (...), escreveu um livro que nos dá um Eça "vivo", e nos propõe acompanhar os seus passos e a sua evolução como homem e escritor, dando-nos a conhecer amizades e amores, sonhos e ilusões, forças e fraquezas, polémicas e posições, percorrendo a sua vida e os seus livros.

 

 

publicado por Queirosiana às 14:28 | link do post | comentar

O Mistério da Estrada de Sintra #35

O primeiro livro deste género em Portugal - mistério e suspense, data de 1871. Surge da ideia de Eça e Ramalho de "abanarem" a cidade de Lisboa com um dos Mistérios mais incríveis de sempre. A população acreditou quando leu a primeira carta do Doutor*** no Diário de Notícias, muitos ficaram receosos de andar pelas estradas de Sintra... durante dois meses Lisboa viveu na ânsia de saber mais sobre este mistério que se inicia com um morto deitado num sofá de uma casa desconhecida.


 


A história cativa-nos como cativou os leitores há dois séculos atrás, se bem que nós partimos da desvantagem de saber que é um romance e não uma situação verídica, a adrenalina seria muito maior se, como outros, acreditássemos na veracidade daquelas palavras. Ainda assim, deliciamo-nos com a história de amor entre Rytmel e a Condessa W. - em certos aspectos lembrei-me várias vezes de Anna Karenina e Vronsky (embora este só tenha sido publicado em 1873, portanto, nada de confusões plagiadas!). Carmén Puebla, também ela fortemente apaixonada por Rytmel, capitão inglês que parece quebrar os corações de todas as mulheres, surge como a personagem ciumenta e é um pouco a antecipação daquilo em que a Condessa W. se virá a transformar, também ela delicerada pelos ciúmes. Uma mulher despeitada é sempre um perigo. 


 


Mas como disse, tudo começa com um morto - razão pela qual o doutor*** e F. são raptados por um grupo de mascarados enquanto passeiam na estrada de Sintra, pois pretendem que o doutor*** confirme a morte e as suas causas. Chegados à casa misteriosa, pois é de localização desconhecida, é-nos apresentada outra personagem que primeiro se declara o assassino e que depois nega - falamos de A.M.C. um jovem médico de Viseu que entra neste enredo de forma suspeita mas com boas intenções. É pelo Mascarado Alto que conhecemos a história entre Rytmel e a Condessa. O culpado será julgado no fim, por este grupo de homens que, afinal de contas, circulam todos no mesmo meio.


 

publicado por Queirosiana às 14:25 | link do post | comentar
Segunda-feira, 28.02.11

As Farpas (1871-1872) #8

 



 


 


Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão


As Farpas


Coordenação Maria Filomena Mónica


Principia, 2007


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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