O Mistério da Estrada de Sintra #17

E depois é cruel, e é forçoso dizê-lo: há sempre um momento em que uma mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades morais do seu amante que a dominaram. (...) E há uma profunda humilhação em nossa consciência quando nos chegamos a convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas ideias e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um não-sei-que, em que entra talvez a cor do seu cabelo e o nó da sua gravata. Sejamos francas: para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das nossas preferências? (...)


 


Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tédio assaltadas de quimeras; tive os meus romances íntimos, que nasciam, sofriam, morriam entre duas flores do meu bordado. Criei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramáticas aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto do fogão. (...) Experimentei eu também os sobressaltos da paixão - e nunca vi, nunca soube que estas imaginações, que estas atracções nascessem de uma verdade da natureza, da lógica das circunstâncias, da irreparável acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo efémero, romântico, literário, fictício, que habita no cérebro de todas as mulheres.


 


O Mistério da Estrada de Sintra,  Capítulo "A Confissão Dela.", Parte III


 


 



publicado por Queirosiana às 12:10 | link do post | comentar