As Farpas (1871-1972) #9

A 17 de Junho de 1817, começaram a aparecer, nas bancas de Lisboa, uns opúsculos de capa alaranjada, decorados com o diabo de Asmodeus (...) ostentando o título As Farpas. Na vertical, figurava o nome de Eça de Queiroz e, na horizontal, o de Ramalho Ortigão. Os caderninhos, cujo subtítulo era Crónica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes, tinham cerca de 100 páginas. (...)

 

O primeiro número de As Farpas esgotou-se rapidamente. A tiragem, à volta dos 2000 exemplares, foi crescendo durante os primeiros tempos. (...) A publicação surgiu na vigência do 33º governo Constitucional, presidido por Ávila. Era um momento de crise. A Guerra do Paraguai (1864-1870) interrompera a remessa da poupança dos emigrantes, uma fonte essencial para a economia e as finanças do País. A cotação dos fundos públicos havia descido, as exportações diminuído e a dívida flutuante aumentado. À crise económica, sobrepunha-se todavia a crise política. Incapazes de resolver os problemas, os Governos sucediam-se a um ritmo vertiginoso. (..)

 

Eça tinha então 26 anos, uma idade em que é normal ter ilusões: acreditava, por exemplo, que era possível mudar o país através do riso. Tanto ele quanto Ramalho queriam usar o humor como forma de destruir o que consideravam instituições caducas, embora Eça tivesse desde sempre albergado reticências quanto ao pendor didáctico que o amigo desejava conferir à publicação. Mas não foi apenas o zelo reformista que levou Eça até As Farpas, e sim, sobretudo, o desemprego. (...)

 

Durante uma conversa com Ramalho, veio-lhe a ideia de escreverem uns opúsculos semelhantes aos que A. Karr, sob o título de "Les Guêpes", editara, durante a Monarquia de Julho em França (...) O inimigo principal de As Farpas eram os políticos. (...)

 

Há muito que se praticava a sátira em Portugal, mas o tom de As Farpas era inédito. Embora, ao longo dos anos, se tivessem publicado muitos panfletos, estes caracterizavam-se por uma graça pesada, populista, antiquada. As Farpas não retiram a sua força, como A Besta Esfolada, da nostalgia pela monarquia absoluta, mas da raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851.

 

In As Farpas (1ª edição Outubro de 2004), Introdução por Maria Filomena Mónica 

 

publicado por Queirosiana às 16:08 | link do post | comentar