As Farpas (1871-1872) #6

No mesmo ano em que decorrem as Conferências do Casino, e orientada no mesmo sentido de crítica geral da sociedade portuguesa, aparece uma publicação mensal redigida por Eça de Queirós e por Ramalho Ortigão - As Farpas . Cada número constituía um comentário crítico e satírico aos acontecimentos e instituições, orientado segundo um ideário cuja principal fonte era, então, a obra de Proudhon.



O artigo inicial, redigido por Eça de Queirós, sobre o Estado Social de Portugal em 1871, faz um juízo muito demolidor da vida social, económica e política, da religião, da opinião pública, do jornalismo e da literatura. Este artigo importa muito, porque nos dá, como veremos, o travejamento doutrinário da obra de Eça de Queirós desde O Crime do Padre Amaro até a Os Maias . Sob o aspecto literário, criticava Eça o lirismo tradicional de "pequeninas sensibilidades pequeninamente contadas por pequeninas vozes", onde, de todo o vasto universo, apenas se ouve "o rumor das saias de Elvira"; lirismo convencional e hipócrita, que nem exprime o temperamento do poeta nem satisfaz a tendência da sociedade - e, por cima disso, imoral. Criticava o romance passional, apoteose do adultério, com nefastas consequências na educação feminina, a qual ainda o preocupará em duas Farpas de 1872; o teatro, que se limitava a decalcar declamações de obras conhecidas; etc.



Desde a saída de Eça de Queirós para Cuba, em fins de 1872, no início da sua carreira diplomática, Ramalho manteve sozinho as Farpas, que continuaram a sair, aliás irregularmente, até 1882, alterando profundamente o seu espírito. (...)


 


Mas sem Eça perderam as Farpas o seu mentor. Faltava a Ramalho um ideário definido e o dom da ironia. À direcção de Eça sucede em Ramalho a influência de Teófilo Braga, que o leva a transitar do proudhonismo para o positivismo. As Farpas tornam-se mais descritivas, enchem-se de pitoresco regional, e ao mesmo tempo adquirem um tom didáctico. (...)


 


História da Literatura Portuguesa (DVD)
Porto Editora


 


Texto Integral no Blogue Aula de Literatura Portuguesa


 

publicado por Queirosiana às 14:23 | link do post | comentar