O Mistério da Estrada de Sintra #34

UMA QUESTÃO DE HONRA




Já me surpreendera antes, com outras obras da época, mas com O Mistério da Estrada de Sintra aflorou-se novamente esta ideia de "honra". Existem inúmeras passagens no livro, pena não as ter assinalado todas, em que as personagens apelam à sua honra, à sua palavra como prova de confiança e verdade.


 


"(...) procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me à sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir, quanto antes, à redacção do Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo (...)"


 


Capítulo "Intervenção de Z"


 


"(...) As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anónimo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto íntimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor - culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões - a religião do carácter? (...)"


 


Capítulo "De F... Ao Médico", Parte IV


 


Hoje em dia já não se ouve este género de frases. O que dizemos tem de ser provado documentalmente, é o B.I. é a carta de condução - não estou a criticar, é apenas um facto - naquele tempo a questão da honra e da palavra era levada ao expoente. Apresentáva-mo-nos como "fulano tal" e ninguém duvidava. Jurávamos pela nossa honra e isso valia como prova de confiança, ética e de verdade. Hoje em dia tudo isto parece descartável. O que dizemos hoje, mais das vezes, tem poucas consequências no dia seguinte. Não chego ao ponto de afirmar que a "honra" se perdeu, mas enquanto ideal de ética do tempo de Eça de Queiroz sim, certamente.


 

publicado por Queirosiana às 11:44 | link do post | comentar