Sexta-feira, 23.09.11

O Século do Romance. Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista

 

10, 11 e 12 de Novembro em COIMBRA | 13 de Novembro em Tormes

O
Centro de Literatura Portuguesa e a Fundação Eça de Queiroz promovem um Congresso Internacional dedicado ao estudo da produção estética realista e naturalista do século XIX, e particularmente à ficção. O congresso decorrerá nos dias 10, 11 e 12 de Novembro, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e, no dia 13 de Novembro, a Fundação Eça de Queiroz acolherá os participantes do Congresso numa sessão específica, em Tormes.

Estão já confirmadas as presenças dos conferencistas:
Carlos Reis, Darío Villanueva, Isabel Pires de Lima, Jean-François Botrel, José Manuel González Herrán, Marisa Sotelo Vázquez, Philippe Dufour, Simon Dentith.

Está a decorrer o processo de aceitação de comunicações a apresentar no congresso.
Consulte o desdobrável do envento.

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O Mistério da Estrada de Sintra - O Filme

Texto da Autoria de Leonor, futura autora do Clube do Eça

 

 

Uma embarcação no meio de uma tempestade nocturna. Dois homens empunhando armas numa postura que denuncia claramente tratar-se de um duelo. Subitamente, tiros rasgam o ar.

Em simultâneo, uma estrada sombria, uma quadrilha que executa um rapto precipitado e… um Ramalho Ortigão muito assustado e intrigado quando se depara com um cadáver de um oficial britânico definhando/sucumbindo num sofá de uma casa senhorial.

Assim se inicia o filme “O Mistério da Estrada de Sintra”, realizado por Jorge Paixão da Costa e produzido pela FF FilmesFundo e Moonshot Pictures, com estreia em 2007.

Após um assalto no qual é confundido por Sidónio Pais, Ramalho Ortigão reconhece nesta situação o mote necessário para despertar as mentes torpes que deambulavam pela capital portuguesa e a inércia que adormecera o país. Eça de Queirós junta-se-lhe nesta empresa e ambos lançam-se na elaboração do que haveria de ser uma das primeiras obras de cunho policial, publicada no Diário de Notícias.

Lisboa é, no ano de 1870, uma “sociedade de costumes corrompidos, de consciências em debandada e caracteres corruptos” (citando o grupo dos “Vencidos da Vida” da adaptação), na qual o ofício da escrita é considerado como um modo de vida cuja qualidade é inferior; é antes um entretenimento, uma forma de lazer. Na verdade, a classe política apreciava o folhetim de forma supérflua e os interesses variavam em género: aos homens, deslumbravam-nos as temáticas políticas; às mulheres, nada como um romance fervoroso para lhes arrancar facilmente um suspiro. É neste sentido que Eça e Ramalho são os mais adequados para o desempenho da tarefa a que se propunham, sendo as personificações do romance e da política, respectivamente.

A questão premente era “Quem teria matado o oficial?” e, sobretudo, a razão que teria motivado semelhante crime. Desenrola-se então uma cativante sucessão de jogos de palavras, insinuações provocatórias, intrigas e olhares apaixonados.

Uma bela condessa de olhos azuis, presa a um casamento infeliz e solitária, possui o apoio do estimado primo V., o qual nutre uma paixão platónica com traços de sobreproteccionismo. Todo esta idolatria é ameaçada com o aparecimento do sedutor capitão inglês Rytmel, que de imediato cativa a frágil condessa. Ambos inflamados defensores da pátria (saliente-se o contexto da expansão colonialista britânica e concorrência que representava para Portugal), tanto o primo V. como Rytmel alimentam um ódio recíproco e tenso. Todos estes movimentos são observados pelos olhos latinos da fogosa Carmen, a qual, determinada a não perder o homem que ama para uma condessa – na sua opinião – sonsa, declara-lhe guerra e promete uma vingança desapiedada…

 

No entanto, o que começara por ser uma brincadeira literária para agitar as mentalidades estagnadas toma proporções assustadoras quando as personagens se transmutam para a realidade… Chantagens, desentimentos, discussões e possíveis rupturas cuja base radica no adultério melindram o curso da história e envolvem o espectador.

O que será que vai acontecer? Afinal, é um mistério ou uma multiplicidade deles?

 

 

 

É francamente recompensador quando obras portuguesas são projectadas para o grande ecrã, mesmo quando as adaptações não são totalmente fidedignas ao original porque de qualquer forma está a dar-se relevo a fragmentos da nossa identidade cultural que, na maioria das vezes, permanecem desconhecidas da população.

Por isso, a iniciativa de Jorge Paixão da Costa é de louvar e confesso que gostaria de ver mais trabalhos deste cariz a ser produzidos, os quais não sejam meramente com o propósito de celebrar datas comemorativas, à semelhança dos filmes de divulgação do Centenário da República (não retirando nenhum mérito a estes pois na verdade apreciei-os bastante).

“O Mistério da Estrada de Sintra” apresenta uma concepção fotográfica pensada e de excelente qualidade e um argumento cujos diálogos reflectem o humor sublime e a crítica social e cáustica de Eça, que ainda hoje permance contemporânea, apesar de tantos anos volvidos. Alberga ainda um elenco sólido com desempenhos notáveis, do qual saliento o de Ivo Canelas que, por detrás do monóculo, imprimia o cunho caricatural, a argúcia e o tom jocoso e sapiente  a que o escritor realista nos habituou.

Relativamente à cronologia e ao avançar da história, talvez o ritmo frenético e a conjugação entre ficção e realidade deixem o espectador algo confuso num primeiro momento, mas rapidamente o ultrapassa até alcançar o fim da história. Este talvez não seja tão apoteótico quanto seria de esperar após longos minutos de ansiedade proporcionados pelas intrigas e paixões, mas calculo que o que encerra seria um grave problema na altura…

Ouso dizer que este filme histórico pode igualar as fantásticas séries da BBC, pelo que o recomendo vivamente.

 

Link do trailer: http://www.youtube.com/watch?v=2p31hNKNjnI

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Quarta-feira, 04.05.11

O Crime do Padre Amaro #1

Li o livro em pouco tempo, estranhei até a rapidez com que o fiz, mas a história é terrivelmente sedutora e é impossível resisitir à tentação!

No início, Eça apresenta-nos um Amaro "sem sal". A sua infância foi repleta de algumas tragédias e de muitos "frus frus" de saias de mulheres. A ida para o seminário por ordem da sua benfeitora, revela-nos um Amaro com pouca convicção na Igreja, sem qualquer vocação. A temporada nos confins da Serra, que ocorre um ano antes de se tornar pároco em Leiria, onde irá decorrer toda a acção de O Crime do Padre Amaro, talvez o tenham despertado para a sua fé, mas não o suficiente. Vai para Leiria por influências de um conhecido seu.

 

Em Leiria, Amaro conhece Amélia, uma jovem rodeada por um clã de beatas que me causaram um certo desconforto, não só pela fé desnorteada que representam como pela contradição entre aquilo que acreditam cega e radicalmente e aquilo que fazem, pois as intrigas discutidas e provocadas por aquele clã de beatas era, no mínimo, desconcertante. Aliás, aquela sociedade escrita por Eça transpirava intriga e mesquinhez, um atraso de pensamento incrível, uma convicção religiosa doentia e temente.

 

A ideia que esta obra transmite, e que até há uns anos atrás não era invulgar, era de que o Padre tinha um poder enorme na comunidade. Nesta obra isso é claro e límpido, assim como a vida faustosa que muitos daqueles padres/personagens levavam, grandes barrigas, grandes festins de comida... o papel da religião é o grande tema em "O Crime do Padre Amaro".

 

Confesso que as personagens religiosas nesta obra são profundamente ridicularizadas, à excepção do Abade Ferrão que, no fim da história, tenta "resgatar" Amélia sem a julgar severamente. É uma personagem curiosa, um religioso que encara a religião da forma, que a meu ver, é a mais indicada - uma fé por Amor e não por Temor.

 

Há depois umas figuras "anti-religião" muito curiosas, como João Eduardo, o enamorado de Améliazinha, que escreve o estrondoso "Comunicado"; o Dr. Godinho, que no início é um forte opositor da Igreja, ams que termina a história, manso como um cordeirinho pois, por via da sua mulher, os padres conseguem controlá-lo; Gustavo, o tipógrafo revolucionário; o Dr. Gouveia, o médico, que tem uma conversa com João Eduardo que me deliciou e que li por duas vezes.

 

A crítica feroz, está, mais uma vez, presente nesta obra de Eça. Critica fortemente a Igreja com muito pouco pudor e com tremenda coragem. é uma obra magistral.

 

publicado por Queirosiana às 11:55 | link do post | comentar | ver comentários (3)

As Farpas (1871-1972) #18

Não li todas as crónicas, aliás, para embaraço meu, apenas li três crónicas completas e não terminei a quarta. Não foi porque não tivesse gostado... de todo. Foi um tremendo gosto ler aquelas três Farpas, citei várias trechos ao meu pai, assinalava páginas e depois lia-as alto e tudo aquilo ainda parecia melhor e mais real dito assim, em voz alta. Sinto necessidade de justificar a minha "não leitura" completa. Acima de tudo, porque era uma leitura muito absorvente, demorada (pois haviam certos termos próprios da época e piadas com certas figuras que só através de uma pesquisa sobre quem eram, faziam sentido) e além disso, parece-me que é uma obra para ir lendo, aos poucos, deliciando cada palavra, sorvendo cada ironia.

 

Em breve aprofundarei um pouco mais as 3 crónicas que li e iniciarei a análise de "O Crime do Padre Amaro" que também já terminei.

publicado por Queirosiana às 11:53 | link do post | comentar
Segunda-feira, 07.03.11

As Farpas (1871-1972) #17

O romance, esse é a apoteose do adultério. Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem drama, nem personagens. Júlia pálida, casada com António gordo, atira com as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre esta acção de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1850!

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

publicado por Queirosiana às 12:29 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #16

A propósito do estado da política da época, Eça escreve:

 

Os lustres estão acesos; o país é expectador distraído: nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e acha-os todos impuros e nulos; não se interessa pelas cenas e acha-as todas inúteis e imorais; não se interessa pela decoração e julga-a ridícula. Só às vezes, no meio do seu tédio, se lembra que para poder ver teve que pagar no bilheteiro!

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 12:28 | link do post | comentar
Domingo, 06.03.11

As Farpas (1871-1972) #15

O corpo legislativo (...) Às vezes procura viver, mover-se, e demonstra então, em rpovas incessantes, a sua incapacidade orgânica para discutir, para pensar, para criar, para dirigir, para resolver a questão mais rudimentar de administração. (...) O parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, intrigar um pouco, e combinar partidas de whist. O parlamento é uma sucursal do Grémio. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


publicado por Queirosiana às 20:30 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #14

Apesar disso a esta política infiel aos seus principios, vivendo num perpétuo desmentido de si mesma, desautorizada, apupada, pede ainda uma multidão inumerável de simples a salvação da coisa pública. É trágico, como se se pedisse a um bobo paralítico mais uma cambalhota ou mais um chiste.

 

O orgulho da política nacional é ser doutrinária. Cada um diz: - sou doutrinário, eu! - Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos; é ter deles por consequência o mínimo; é não ser de partido nenhum - ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 11:37 | link do post | comentar

As Farpas (1871-1972) #13

Nós não quisemos se cúmplices na indiferença universal. E aqui começamos serenamente, sem injustiça e sem cólera, a apontar dia por dia o que poderíamos chamar - o progresso da decadência. (...) Não sabemos se a mão que vamos abrir está ou não cheia de verdades. Sabemos que está cheia de negativas. Não sabemos, talvez, onde se deva ir;sabemos decerto, onde se não deve estar. (...) E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal. (...) Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 


 

publicado por Queirosiana às 11:37 | link do post | comentar
Sábado, 05.03.11

As Farpas (1871-1972) #12

O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

 

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

Não estranhem qualquer coincidência com a realidade actual, ou pelo menos, estranhem e depois entranhem. N'As Farpas, esta quase assustadora semelhança com a actualidade acontece de página para página. É um livro essencial para compreendermos este nosso país e para nos apercebermos da falta de originalidade que nos persegue desde o séc. XIX, uma vez que as críticas ferozes que Eça e Ortigão fazem nesta obra, mantêm-se, agravam-se, perpetuam-se. Embora a obra nos faça rir das nossas desgraças, é com esse ridículo que despertamos - um pouco como o efeito balde de água fria.

 

publicado por Queirosiana às 16:28 | link do post | comentar

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